domingo, 30 de agosto de 2009

De Renato Russo a Santos Dumont

O texto abaixo não é de minha autoria. Quem conhece esse cantinho sabe muito bem que eu, Coccinelle, não publico apenas textos meus, mas, também, textos de outros que admiro e que enxergam o mundo de uma maneira semelhante à minha. A autoria do texto abaixo é da Vange Leonel, cantora, compositora e escritora que admiro muito, não apenas porque compôs NOITE PRETA, o hit de abertura da telenovela global Vamp (que eu adorava e não perdia um só capítulo), mas, sobretudo, por conta dos artigos que publicava na antiga e inesquecível revista SUI GENERIS. Sempre me identifiquei com os escritos dessa mulher inspiradora, seja pelo conteúdo em si, informativo e libertário, seja pela maneira simples e direta que ela utiliza para se comunicar com seus leitores/interlocutores (essa primeira parte do post é de minha autoria).

Renato Russo, Cássia Eller e Cazuza foram raros exemplos de artistas que assumiram, em vida e publicamente, sua homossexualidade. Ney Matogrosso, João Silvério Trevisan, Aguinaldo Silva, o jogador de vôlei Lilico, Leão Lobo, Edson Cordeiro e esta humilde escriba são pessoas com alguma visibilidade na mídia que não escondem sua preferência pelo mesmo sexo.

Há cada vez mais gente assumindo sua homossexualidade para o público, e embora alguns achem tratar-se apenas de sem-vergonhice e exibicionismo, não é: dizemos em alto e bom som que somos gays porque não queremos viver à sombra. Se há homossexuais que não querem fazer alarde de sua condição, há outros, como os citados acima, que não vêem (ou não viram) razão para ocultar suas preferências.

Afinal, heterossexuais podem sair à rua de mãos dadas com seus pares e chegam a festas apresentando-os como “meu namorado” ou “minha mulher”. Ora, por que teríamos que fazer diferente? Só porque gostamos de pessoas do mesmo sexo deveríamos varrer nossos namorados para baixo do tapete?

Não é fácil. Conseguimos maior visibilidade e conquistamos alguma proteção da lei, mas o senso comum ainda acha que, mesmo tendo o direito de existir e respirar, é melhor que fiquemos em nossos cantos, de preferência sob a sombra e abrigados pelo véu da noite, quando os gatos são pardos e as crianças dormem.

Isso me lembra uma declaração que li, meses atrás, de um sujeito empenhado em criar um roteiro turístico sobre Santos Dumont. Imaginando-se paladino do patrimônio nacional, ele disse que, inicialmente, precisaria “limpar” a imagem do aviador e desabafou: “Só no Brasil acontece isso! A coisa mais absurda é ferir a imagem de uma figura de extrema importância mundial com o fato de ele ser ou não homossexual”.

Fiquei pasma. Absurdo é achar que a possibilidade de Santos Dumont ter sido homossexual possa ferir sua imagem. Depois, sujeitos assim ainda vêm dizer que não são preconceituosos e até têm amigos gays – bem trancados no armário, claro!
(por Vange Leonel – Revista da Folha 02/02/2003)
*
NOITE PRETA – a música

Música de Vange Leonel e Cilmara Bedaque. Direção do clip: Cilmara Bedaque e Luiz Ferré.




VAMP – a novela

Abertura da telenovela da Rede Globo, escrita por Antônio Calmon e dirigida por Jorge Fernando. Exibida no horário das 19:00h, entre julho de 1991 e fevereiro de 1992, a trama tinha como principais protagonistas a bela e exuberante Cláudia Ohana e o maravilhoso Ney Latorraca. Sucesso retumbante de audiência, especialmente entre crianças e adolescentes.


domingo, 23 de agosto de 2009

Pour Coccinelle

Comment vas-tu? J’espére que tout va bien avec tu et ta famille. Je suis trés heureux. Pour cet raison, je écris pour vous cette letre. Pour diviser moi félicité avec vous, qui êtes moi meilleur ami.

Tu souviens de le voyage que j’ai fait a Caicolândia? Cette voyage est allé la meilleur de ma vie, parce que là j’ai recontré la lumière que aujourd’hui illumine mes jours et mes nuits aussi. Cette lumière s’apelle Anatércia et elle est plus radieux que le soleil ou la pleine lune.

Nous nous recontrions en une matin de samedi. Anatércia avait passé devant ma fenêtre, quand je la voyais pour la première fois. Elle a ressemblé une brume a glisser sur la terre recouvrait de poussière. Elle est allé pour la marche. Je la suivis. Elle a acheté banane, haricot, farine, riz, courge et viande de porc, beacoup viande. Elle n’a pu pas porter tout chose que avait acheté parce que ils sont été lourd. Je me offris pour la servir. Elle a souriri pour moi tendrement et je suis presque mort.

Quand nous avions arrivé a sa maison, elle a me inventé pour entrer. J’ai accepté le invitation. En sa modeste maison, mais très chaleureux, elle a me offert eau de coco. Cett’eau a été la meilleur que j’ai déjà bu. Après une long conversation, nous avons percevu que le temp a passé. Mais déjà a été très tard. Nous étions amoureux beaucoup. Nous n’avons voulu pas fuir de notre passion. Pour cet raison, nous avons continué a boire eau de coco, que est bom pour notre santé. À bien-tôt. Ariovaldo
.

O amor é como como água de côco. Não bastasse ser algo deliciosamente delicioso, faz um bem danado à saúde. Só me resta, então, dizer bebamos, pois! Bebamos para embriagarmo-nos de amor até o amanhecer e, assim, gozarmos todas as delícias da voluptuosidade (Coccinelle).

domingo, 16 de agosto de 2009

Todo mundo é meio Leila Diniz

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz”, ou melhor, viver e não ter a vergonha de ser, simplesmente. Esses versos da música do Gonzaguinha parecem ser bastante apropriados para definir uma das personalidades mais fascinantes do Brasil, Leila Diniz. A sua revolução não foi aprisionada por amarras teóricas ou conceituais, foi, isto sim, vivida intensamente, fazendo dela uma mulher libertária. Talvez por isso seu comportamento e suas idéias escandalizassem tanto a conservadora sociedade brasileira dos anos 60.

Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945, em Niterói, estado do Rio de Janeiro. Ainda adolescente saiu de casa e passou a viver com o cineasta Domingos de Oliveira. Chegou a trabalhar como professora primária até o início de sua carreira artística, na peça O PREÇO DE UM HOMEM, a convite de Cacilda Becker (1964). No ano seguinte, estrearia no cinema, em O MUNDO ALEGRE DE HELÔ. Nesse período, separou-se de Domingos de Oliveira e passou a viver sozinha.

Em 1966, ganhou notoriedade com TODAS AS MULHERES DO MUNDO, filme autobiográfico de Domingos de Oliveira sobre o casamento dos dois. Junto ao ator Paulo José, apareceu nua e esplendidamente bonita, vivendo a história de um amor que se transformava em amizade. Sua espontaneidade e brilho ao representar praticamente a si mesma transformaram-na em modelo de mulher livre para boa parcela das classes média e alta. O filme conquistou o público e recebeu sete prêmios no Festival de Brasília. A partir de então Leila passou a trabalhar intensamente. Em 1968 filmou EDU, CORAÇÃO DE OURO, FOME DE AMOR, O HOMEM NU e A MADONA DE CEDRO. Além de filmes, atuou em várias telenovelas, entre as quais O SHEIK DE AGADIR e O ALIENISTA. Em 1969, estrelou TEM BANANA NA BANDA, espetáculo de teatro que se notabilizou por ter revitalizado o gênero de revista.

Foi também em 1969, quando o Brasil chafurdava no lamaçal de fardas da ditadura, que Leila Diniz provocou uma enorme polêmica no país. Em entrevista ao periódico alternativo Pasquim deu a primeira entrevista sobre intimidades da história do jornal, comprovando que de fato ela era a manifestante despudorada do prazer e uma das revolucionárias mais eficientes de uma época em que tabus e ideologias conservadoras foi amplamente questionadas. “Não gosto de convenções. Não tenho preconceitos. Não faço regimes”, dizia. No auge da repressão política no Brasil, ela pregou a liberdade feminina e o amor livre e em momento algum posou de moça recatada. “Você pode amar muito uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo”, revelou.

Suas declarações e idéias fizeram o jornal vender como nunca e a referida entrevista acabou entrando para a história não só pelas opiniões da entrevistada, mas por haver motivado a lei de censura prévia, apelidada de Decreto Leila Diniz, produzida pelo então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, cujo pretexto para justificar o seu ato foi o monte de palavrões que ela proferira ao longo da entrevista, apesar dos editores tê-los substituídos por 72 asteriscos. Em conseqüência, seu contrato com a Rede Globo não foi renovado e a ditadura passou a fazer pressão para que não mais a contratassem.

Entre 1970 e 1971, Leila Diniz conheceu o diretor Ruy Guerra, com o qual teve uma filha de nome Janaína. Apesar da paixão que os unia, cada qual continuou vivendo em sua própria casa. Em 1971, grávida de seis meses, escandalizou mais uma vez a sociedade brasileira ao aparecer de biquíni na praia de Ipanema. Suas fotos, com a barriga exposta e o rosto sorridente, de imediato tiveram ampla divulgação na imprensa. Afinal, o povo nunca tinha visto aquilo. O ineditismo incômodo do seu gesto levou-a a ser acusada por feministas de servir aos homens. Num contexto histórico de polarizações ideológicas, Leila Diniz era considerada artificial pela esquerda, enquanto a direita a acusava de imoral. Outro motivo de escândalo foi a atriz ter dado de mamar à filha, Janaína, no intervalo do espetáculo de teatro de revista que estrelava, VEM DE RÉ QUE VOU DE PRIMEIRA. No ano seguinte, o talento de Leila foi reconhecido no exterior: ela ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Adelaide, na Austrália, com o filme MÃOS VAZIAS. Na viagem de volta ao Brasil, seu avião explodiu a 30 km de Nova Déli, na Índia. Ela morreu em 14 de julho de 1972, aos 27 anos, com nove de carreira e 14 filmes. Quem ficou de mãos vazias foi a rebeldia nacional.

Hoje em dia, uma grávida na praia, de biquíni, é coisa normal. Mulher nua na tela do cinema não espanta ninguém e, muito menos, alguém liga se ela fala palavrões ou dá de mamar em público. Mas, na década de 60, a sociedade era bem diferente. Se houve alguém que abriu caminho para que todos esses comportamentos – à época, escandalosos – se tornassem cotidianos, foi Leila Diniz, com a força do próprio exemplo. Ainda que, no auge da radicalização política, não fizesse apologia ao movimento feminista, ou carregasse qualquer bandeira. “Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores, eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores” (Revista Fatos e Fotos – fevereiro de 1968).

Ao contrário, ela nunca deu a entender que desejava convencer ou converter alguém. Se, depois de sua morte, os movimentos feministas acabaram por transforma-la num símbolo da emancipação da mulher, foi porque suas atitudes sempre refletiram a convicção de que todo mundo tinha o direito de viver como quisesse. Ser careta, liberado, intelectual, casar virgem era uma questão de opção individual e particular.

Como escreveu Ruy Castro em ELA É CARIOCA: UMA ENCICLOPÉDIA DE IPANEMA (Companhia das Letras, 1999): “Leila se deixou julgar por um país inteiro para que ninguém mais julgasse ninguém”. A leveza com a qual encarava a vida não deixa de despertar uma ponta de inveja, o que me leva a dizer, parafraseando a Rita Lee, que todos nós, mulheres e homens, somos meio Leila Diniz, ao menos desejamos ser (por Coccinelle).

domingo, 9 de agosto de 2009

Homofobia ou estupidez?

Homofobia, como se sabe, é o ódio e/ou aversão ao modo de ser e estar homossexual. Por mais que tente, não consigo entender a razão da homossexualidade provocar esse sentimento naqueles que se dizem não-homossexuais. Para mim, a homofobia, além de torpe, é muito suspeita. Digo suspeita porque toda fobia resulta de um incômodo que, de acordo com o dicionário, significa tudo aquilo que não é confortável, que provoca embaraço, mal-estar ou aborrecimento. Se algo provoca em mim todas essas sensações, então, esse algo me toca de alguma maneira. Não nos incomodamos com nada que não nos diz respeito. No caso da homofobia, suspeito que esse incômodo nasça de uma atração que precisa ser negada para que o indivíduo atenda às expectativas instituídas pelas convenções sociais tradicionalmente sedimentadas. Tal negação por vezes se manifesta de forma violenta, por outras, de maneira sutil, como se pode perceber na matéria abaixo, de autoria do Fábio Altman, publicada na revista ISTOÉ DINHEIRO do dia 23/06/2004. Vejam só:

Há algo de podre no reino de William Shakespeare – podre talvez seja uma expressão um pouco exagerada. O fato é que na próxima semana, durante um encontro de shakespearianos em Londres, a escritora Robin Williams apresentará uma tese insólita – o bardo de Stratford era uma mulher. Quem? Mary Herbert, née Mary Sidney, a Condessa de Pembroke. Amante das artes, exímia tradutora, freqüentadora da corte de Elizabeth I, ela morreu em 1621 com fama de sumidade. Houve, claro, um William – mas ele teria sido testa-de-ferro de Mary. Se William foi Mary, como indica o polêmico estudo, isso explicaria o fato dos sonetos de amor de Shakespeare serem dedicados a um efebo. Explica, também, a dedicatória da primeira coleção de peças de teatro, para os condes de Pembroke e Montgomery, seus filhos. Tome-se a suposição como certeza para alimentar uma questão: saber que Shakeaspeare era ela, e não ele, muda alguma coisa no interesse por uma das marcas mais valiosas da história? As edições de Romeu e Julieta venderão menos por sabermos que a tragédia foi criada por mãos femininas? “Não altera nada do que ele escreveu, o que importa é a obra, que atravessou tempos e lugares”, diz Aimara da Cunha Rezende, uma das grandes especialistas brasileiras na obra do gênio inglês, presidente do Centro de Estudos Shakespeareanos do Brasil. Mas não há dúvida: a revelação acrescenta fermento numa figura lendária, tratado em tom quase religioso por seus adeptos.

Perceberam como ocorre a negação? Diz o Fábio Altman: “Se William foi Mary, como indica o polêmico estudo, isso explicaria o fato dos sonetos de amor de Shakespeare serem dedicados a um efebo”. Ora, ora, por que o William Shakespeare, sendo um homem, não poderia ter dedicado sonetos de amor a um efebo? Por qual razão é difícil aceitar que um dos maiores escritores da humanidade e da cultura ocidental era homossexual? Simples: HOMOFOBIA!

No tempo do Shakespeare as mulheres eram consideradas seres menores, inferiores aos homens. Consequentemente, tudo que viessem a produzir, sobretudo no campo das artes e das idéias, era considerado (quando considerado) algo menor, sem importância alguma. Sendo assim, produtores e editores se recusavam a publicar obras assinadas por mulheres. Daí muitas terem utilizado pseudônimos masculinos ou supostos testas-de-ferro, conforme foi dito na matéria do Fábio Altman. O que acabo de dizer não é novidade alguma. Evidentemente que o famoso William Shakespeare poderia ter sido um desses testas-de-ferro. A hipótese da pesquisadora/escritora Robin Williams é perfeitamente plausível. O que não é plausível é afirmar que o Sir William Shakespeare só poderia ter escrito sonetos de amor para rapazes se ele fosse, não um homem, mas, sim, uma mulher. Se isso não for homofobia, sem dúvida, é uma grande estupidez, afinal, somente uma mente tola ou doentia pode duvidar que homens sejam capazes de escrever cartas e/ou poemas de amor, ou até mesmo livros e peças teatrais inteiras, para outros homens (por Coccinelle).

domingo, 2 de agosto de 2009

Poema Falado: Sorri-Smile

Um poema é mais que um poema. Um poema é a senha que nos permite acessar o recôndito das almas, seja a alma de quem o escreve, seja a alma de quem o aprecia. Os poemas nos revelam. Vamos, pois, revelarmo-nos através dos poemas falados que doravante O cantinho de Coccinelle e outros dois blogs, o Bienvenue-Ami e o Salvador na sola do pé, apresentarão sempre no primeiro domingo de cada mês. Pretendemos formar uma rede tecida por versos e sons magníficos, afinal, como disse o Carlos Drummond de Andrade, “uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”. Se quiser fazer parte dessa rede é só entrar em contato. O primeiro poema da série que hoje se inaugura é o Smile, letra composta por John Turner e Geoffrey Parsons para a música do Charles Chaplin. No Brasil ela foi lindamente traduzida por João de Barro, o Braguinha, nome fundamental da música brasileira. É esta tradução que aparece no vídeo abaixo. Boa leitura!

SORRI (SMILE)




Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz!

terça-feira, 28 de julho de 2009

O erotismo 2

O erotismo pode ser interpretado de maneiras distintas. Há quem o interprete tomando como ponto de partida questões mais voltadas para a sexualidade. Outros, preferem abordá-lo do ponto de vista filosófico. O autor do artigo a partir do qual a presente resenha foi elaborada, Luiz Renato Martins, optou por essa segunda abordagem para discorrer sobre o referido tema.

Partindo de uma análise da trajetória filosófica de Georges Bataille, Renato Martins afirma que nem sempre o erotismo está diretamente ligado à noção de desejo, como ocorre na obra do autor que ele analisa. Quando o desejo aparece nos escritos desse autor, argumenta Martins, geralmente nos remete a situações sem conotação sexual direta, diferentemente das concepções usuais da psicanálise, que passou a pensar essa questão como atributo da sexualidade. Assim, de acordo com Renato Martins, o desejo em Bataille surge, na maioria dos casos, como uma operação do espírito que busca uma evolução cognitiva. Faz-se necessário, portanto, por de lado a via do desejo para poder entender o erótico na obra Bataille.

O ponto de partida de Bataille para discutir o erotismo é a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Como se vê, o exame do erotismo feito por ele está à luz da interpretação do pensamento hegeliano, um pensamento que se ocupa bastante com a questão do conflito. Para Martins, não é intenção de Bataille transgredir ou contestar Hegel. Entretanto, ele propõe uma atualização desse mesmo pensamento, o que eqüivale dizer modernização. Como?

Através, principalmente, dos dados fornecidos por Freud e Marcel Mauss na Psicanálise e na Antropologia, respectivamente.

O erotismo, para Bataille, estabelece dois planos de conflito: o primeiro (deboche), se constitui numa oposição à elevação moral do pensamento; o segundo, se manifesta numa cisão irreconciliável da consciência, problematizando a integridade do espírito.

“Os contatos da consciência com a vida e as relações entre as diferentes figuras da consciência são pensadas por Hegel mediante o esquema da luta […] Em tal sistema, o conflito está determinado e tem um conflito. Assim, o entendimento, no papel de forma inferior do espírito, distingue externamente os oponentes; já na fase seguinte, o conflito é absorvido e se torna interno. Nesse percurso, o progresso da consciência de si acaba por conduzir à supressão das diferenças e ao reencontro da consciência consigo, constituindo-se então como Razão […] nessa evolução, desaparecem as desigualdades iniciais entre as consciências oponentes. Os pólos adversários se reconhecem, em uma unidade externa e interna. Alcança-se assim a superação dos conflitos. Desse modo, para Hegel, a luta funciona apenas como forma provisória, fase de um processo cuja meta é a unidade pacífica e sintética de todas as diferenças”.

Para Bataille ocorre o oposto. O erotismo estabelece contradições insuperáveis na consciência. A experiência erótica atesta o caráter duplo do espírito, ou seja, sua heterogeneidade. Essa heterogeneidade, afirma, simultaneamente, de acordo com Martins, o interdito e a transgressão, a oposição entre pensamento e espírito, a ordem e a desordem e por isso ela é insuperável. Diferentemente de Hegel, em Bataille a consciência (o Espírito), uma vez separada, não tem mais como reconciliar-se. Ele descarta, portanto, a síntese e a pacificação das contradições. É desse modo que Bataille propõe a atualização da fenomenologia hegeliana, ultrapassada, segundo ele, por saberes mais modernos, como a psicanálise, a antropologia, a sociologia, etc. Assim, o destaque que Bataille dá à questão do erotismo acaba necessariamente salientando sua qualidade de PARADOXO.

Sartre o critica por desconsiderar a síntese e a pacificação da consciência e por isso o situa entre os discípulos “infiéis” de Hegel. Para Martins, entretanto, apesar da crítica sartriana ser procedente, Bataille não pode ser classificado como um “infiel”, pois, segundo ele, a posição de Bataille em considerar as contradições da consciência sem solução se explica por sua aproximação com os escritos de Nietzsche.

Qual a importância do pensamento de Nietzsche na obra de Bataille?

Segundo o Bataille, o niilismo (redução a nada; descrença completa; doutrina política segundo a qual o progresso da sociedade só é possível após a destruição de tudo aquilo que existe socialmente) de Nietzsche eliminou qualquer esperança de apaziguamento do espírito, colocando o conflito como algo inerente à sua própria constituição. Desse modo Nietzsche conseguiu evitar a síntese e, por conseguinte, impediu a constituição da Razão.

Assim Bataille se distancia do arcabouço metafísico de Hegel e nesse seu percurso passa a travar uma luta com as filosofias de Heidegger e de Sartre. O seu pensamento, segundo Renato Martins, se ordena mediante tal confronto. Assim, acaba por se tornar um acorde dissonante tanto do existencialismo quanto da fenomenologia. Somente através desse confronto é que podemos, de acordo com Renato Martins, entender a questão do erotismo em Bataille.

O erotismo aparece em Bataille como um contraposto à noção de LIBERDADE apresentada por Heidegger e por Sartre. Para ele, a experiência erótica, assim como o riso, o choro, o sacrifício, etc., escapa à ordenação cognitiva, ou seja, no mínimo ultrapassa o conhecimento como um fim, visto que se desvencilha do esforço específico de significar (experiência fenomenológica), pois desenvolve intensa atividade emocional. Adentra uma região normalmente velada pela consciência, ou, segundo Bataille, “uma região obscura, fechada à fenomenologia”, que é a AFETIVIDADE. Desse modo, Bataille separa a experiência em dois domínios distintos: o da consciência e o da afetividade. Note que ao fazer tal separação, Bataille está enfatizando o caráter heterogêneo do espírito. Portanto, esses dois domínios não são conciliáveis.

Nesse ponto tem início toda a crítica que ele faz a Heidegger. Começa por se contrapor a este, tomando o RISO como ponto de partida para seu pensamento e não a ANGÚSTIA como o faz Heidegger.

Para Heidegger, o outro provém da angústia, ou seja, o nada. Assim, segundo ele, “a angústia constitui um estado propício à revelação da totalidade”. Como Bataille considera a consciência dotada de contradições irreconciliáveis, descarta, portanto, a revelação de uma totalidade. Com isso, contrapondo-se à angústia, que remete à totalidade, o riso, para Bataille “pressupõe o não-sentido e conduz ao não-saber”.

Negando qualquer remissão à totalidade e enfatizando o não-saber, o não-sentido, Bataille entra em desacordo com a noção de liberdade de Heidegger, que dada a sua primazia no ser, acaba por vincular-se à essência da verdade e ainda à noção de totalidade. Para superar tal idéia, Bataille elabora a noção de SOBERANIA, surgida com o embate travado com Sartre.

Segundo Renato Martins, a experiência da liberdade, para Sartre, ocorre mediante uma escolha racional (o homem pode escolher ser isto ou aquilo), conjugada a uma aspiração que escolhe valores (escolher é afirmar o valor do que escolhemos). A liberdade em Sartre, portanto, caracteriza-se como uma ação moral. Desta maneira, a CONSCIÊNCIA aparece como forma necessária da liberdade.

Bataille, entretanto, não coloca a consciência na centralidade do seu pensamento. Assim, ele descarta o que, em Sartre, aparece como mais legítimo, ou seja o cogito, adotando a categoria dos afetos como algo nato e imediato, e não como estados da consciência. O que ele propõe, portanto é libertar-se da noção de liberdade, em favor da noção de SOBERANIA para que se possa ir além da necessidade.

Em que consiste a soberania para Bataille? A noção de soberania cunhada por Bataille foi influenciada pelos trabalhos de Marcel Mauss no que se refere ao potlach. Tal noção consiste num impulso da consciência ao desperdício, ao esbanjamento, o que vai de encontro ao impulso da acumulação, característica do capital. Na sua definição, o burguês é o ser mais avesso à soberania, uma vez que seu objetivo é acumular e seu maior prazer se encontra na opulência.

Renato Martins recorre a algumas imagens, oferecidas pelo próprio Bataille para exemplificar sua noção de soberania. Por exemplo: um operário que se serve de um copo de vinho; um pobre que numa manhã de primavera vislumbra um raio de sol numa rua miserável; um fumante tragando seu cigarro. A soberania estaria, então, ligada ao prazer, experiência esta submersa na região da afetividade, a qual escapa à ordenação cognitiva, que dissocia a vida mental dos imperativos e ditames sobre os comportamentos.

Para Bataille, uma ação soberana está correlacionada aos impulsos de esbanjamento. “Ela se refere a uma opção da consciência favorável ao desperdício, benevolente com a perda. Assim, a soberania se apresenta como perspectiva operatória, que avalia condutas, excluindo, ao se efetuar, toda referência a alguma finalidade [acaso existe alguma finalidade em fumar, ou contemplar o sol?], a uma essência, a uma origem determinante. A soberania assinala a dispensa das representações da vida humana conjugadas a sinais de servidão e insuficiência”. Desse modo, “no âmbito dos comportamentos, os seres não escapam à necessidade imperiosa, uma vez o excesso se fazendo sentir, de desperdício. Contudo, com freqüência, tais gastos são malditos [a PARTE MALDITA, não reconhecida pela consciência, que busca destruí-la]. A consciência não costuma tolerar perdas improdutivas ou insensatas”. Como se vê, a soberania, para Bataille, “não conduz ao universal ou à Razão, não se efetua como momento de síntese do espírito” (por Coccinelle).

Resenha feita a partir da seguinte obra:

MARTINS, Luiz Renato. "Do erotismo à parte maldita". In: NOVAES, Adauto (org.). O Desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Esperando os bárbaros – Konstantinos Kaváfis

Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores
a brindar-nos com o jorro feliz de sua eloqüência?
Porque hoje chegam os bárbaros
que odeiam a retórica e os longos discursos.

Por que de repente essa inquietude
e movimento? (Quanta Gravidade nos rostos!)
Por que esvazia a multidão ruas e praças
e sombria regressa a suas moradas?

Porque a noite cai e não chegam os bárbaros
e gente vinda da fronteira
afirma que já não há bárbaros.

E o que será agora de nós sem bárbaros?
Talvez eles fossem uma solução afinal de contas.
*
KONSTANTINOS KAVÁFIS (Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης) nasceu em Alexandria em 1863 e faleceu em 29 de abril de 1933, dia do seu aniversário, na mesma cidade. Pertencera a uma importante família burguesa de origem grega e passado aristocrático. Consta que sua mãe, ansiando por ter uma filha, criou-o como uma menina durante algum tempo. Muitos tentam explicar a origem da reconhecida homossexualidade do poeta através desse fato. Em 1870, após a morte pai, a mãe viaja com ele para a Inglaterra, onde vivem em Londres e depois em Liverpool. Em 1882 tentam retornar para Alexandria, mas, devido a intervenção armada britânica no Egito, refugiam-se em Constantinopla. Finalmente, em 1885 voltam a Alexandria, onde o poeta viverá até a morte, embora, ocasionalmente, tenha feito viagens à Inglaterra, França e Grécia. Morou com a mãe enquanto ela viveu. Tornou-se funcionário do Ministério da Irrigação. A partir de 1907, com a morte ou imigração dos irmãos, viveu praticamente só. Kaváfis tornou-se um dos poetas mais importantes de Alexandria, escrevendo em sua língua materna, o grego. Em vida publicou muito pouco: duas plaquetas em 1904 e 1910, uma com 14 e a outra com 21 poemas, e poemas esparsos, em folhas soltas, que enviava a quem os pedia. Assim mesmo seu prestígio literário foi grande e imediato, ao ponto do governo grego lhe conceder o prêmio Fênix. Em sua poesia renunciou à métrica tradicional; combinava o moderno e o arcaico, e elementos helenísticos com bizantinos. Criou uma expressão própria e peculiar, marcada pelo que os críticos chamaram de um lirismo objetivo, por tons dramáticos e uma tonalidade trágica. Dizia-se um poeta historiador. Morreu em 29 de abril de 1933, no dia de seu aniversário. Em 1935 sua obra ganhou uma edição completa, e a partir daí foi traduzida para várias línguas, entre elas o português. A edição mais abrangente de suas obras no Brasil é a da tradução de José Paulo Paes, publicada em 1982 (por Flávio Aguiar).

“BELEZA É TAMBÉM MULTIPLICAR OS DONS”

domingo, 12 de julho de 2009

Epístola de São Paulo aos efésios

A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o desígnio salvador de Deus, mistério oculto desde a eternidade de Deus, que tudo criou.

Que Cristo habite pela fé em vossos corações, arraigados e consolidados na CARIDADE, a fim de que possais, com todos os cristãos, compreender qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, isto é, conhecer a CARIDADE DE CRISTO, que desafia todo o conhecimento, e sejais cheios de toda a plenitude de Deus.

Exorto-vos, pois – prisioneiro que sou pela causa do Senhor –, que leveis uma vida digna da VOCAÇÃO à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com CARIDADE.

Mas a cada um de nós foi dada a graça, segundo a medida do DOM DE CRISTO, pelo que diz: Quando subiu ao alto, levou muitos cativos, cumulou de dons os homens (Sal 67,19).

A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo, até que todos tenhamos chegado à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitadas por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da CARIDADE, cresçamos em todos os sentidos, naquele que é a cabeça, Cristo. É por Ele que todo o corpo – coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a ATIVIDADE QUE LHE É PRÓPRIA – efetua esse crescimento, visando à sua plena edificação na CARIDADE.

Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor: comportai-vos como verdadeiras luzes. Ora, o fruto da luz é bondade, justiça e verdade. Procurai o que é agradável ao Senhor, e não tenhais cumplicidade nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente. Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas. Mas tudo isto, ao ser reprovado, torna-se manifesto pela luz. E tudo que se manifesta deste modo torna-se luz. Por isto a Escritura diz: Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará (Is 26,19; 60,1)!

Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo, pois os dias são maus. Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus.

“BELEZA É TAMBÉM MULTIPLICAR OS DONS”

domingo, 5 de julho de 2009

Paixão pelo esporte

O esporte é um meio onde homens e mulheres sempre ocuparam espaços distintos e bem demarcados. Desde a Grécia antiga tem sido assim. Na pólis cada sexo tinha o seu lugar definido, mesmo em Esparta, onde era permitido que mulheres praticassem as disciplinas do corpo e da mente. Atualmente, tal premissa ainda continua valendo.

Nas competições esportivas nunca se vê homens e mulheres jogando no mesmo time. Claro que por trás disso existe a milenar idéia de que o homem é superior à mulher e por isso ele não se mistura. Entretanto, acredito haver subjacente a esta, uma outra razão, ligada a uma questão polêmica porque abala certas estruturas: a homossexualidade nos meios esportivos.

Na antiga Grécia meninas e meninos recebiam uma educação diferenciada porque caso as meninas ameaçassem os rapazes em seu próprio território – caça, guerra e esportes – o equilíbrio, por certo, se alteraria. Hoje, se levarmos em conta a homossexualidade, veremos que pouca coisa muda. Na opinião de João Silvério Trevisan, a homossexualidade nos meios esportivos abala suas estruturas porque tais meios se constituíram em espaços historicamente hetorosexistas. “Um jogador de futebol gay balança toda a estrutura do esporte que é considerado um espaço basicamente masculino e macho, machista. E mal sabem essas pessoas que é nesses espaços justamente que a máscara atua, é um espaço onde os homens criaram a possibilidade protegida de estar juntos, ou seja, ter uma experiência psicológica não necessariamente homossexual, mas com certeza homoerótica” (Caros Amigos – Outubro/2000). Assim, tal qual as meninas na antiga Grécia, na atualidade, os meninos gays abalam as estruturas dos meios esportivos por colocar em evidência a ambiguidade do macho, conforme foi sugerido acima por Trevisan (por Coccinelle).

domingo, 28 de junho de 2009

Cântico dos cânticos

A autoria do livro CÂNTICO DOS CÂNTICOS é atribuída a Salomão. Trata-se de um poema em que se canta e exalta o amor humano como fruto de uma natureza sexuada e erótica. Aqui foi feita uma seleção dos trechos mais picantes do livro e de pequenos outros trechos do livro dos Provérbios, que segundo a ficção literária, também é de autoria de Salomão. Esta adaptação livre buscou ser o mais fiel possível ao texto original. Sua concepção foi feita por dois motivos. Primeiro, para demonstrar que o erotismo possui duas faces: uma profana e outra sagrada. Segundo, para divulgar esse que, sem dúvida, é um dos livros mais belos das sagradas escrituras. Bom deleite (por Coccinelle).

Durante a noite, no meu leito, busquei aquele que a minha alma ama. Procurei-o, mas não o encontrei. Levantei-me e percorri a cidade, as ruas e as praças, em busca daquele a quem a minha alma ama. Procurei-o e não o achei.

Encontraram-me os guardas que faziam a ronda na cidade. Perguntei-lhes: “Acaso viste aquele a quem a minha alma ama”?

Mal passara por eles, encontrei aquele a quem a minha alma ama. Apanhei-o e disse-lhe: “Ah! Beija-me com ósculos da tua boca! Porque os teus amores são mais deliciosos que o vinho, e suave é a fragrância dos teus perfumes”!

Eis que ele me respondeu: “Quão formosa e encantadora és, meu amor, minhas delícias. O teu porte assemelha-se ao da palmeira e os teus dois seios são os cachos. Subirei a palmeira e colherei teus frutos, que para mim são como cachos de uvas”.

Respondi: “Eu sou para o meu amado, e os seus desejos voltam-se para mim”.

Com lijonjas arrastei aquele a quem a minha alma ama para meus lábios e sabendo bem que um homem não pode esconder fogo em seu seio sem que suas vestes se inflamem, sussurei-lhe: “Vem, meu amado, saiamos para o campo, passemos a noite nos pomares; madrugaremos para ir às vinhas, e ver se a vinha lançou rebentos, se as flores se abrem, se as romãzeiras estão em flor. Ali te darei meus amores”!

“Os seus ardores são chamas de fogo”! Falou-me aquele a quem minha alma ama. Meu coração estremeceu.

“Vem"! Disse-lhe. "Embriaguemo-nos de amor até o amanhecer, gozemos as delícias da voluptuosidade”!

“Oh, como és bela, minha amada, como és formosa! Tenho a minha vinha diante de mim”!

Dizendo isto ele me seguiu imediatamente, como um veado colhido no laço. E juntos nos perdemos na imensidão do nosso amor.