domingo, 27 de setembro de 2009

Por uma reforma gramatical!

Os mais conservadores alegam que as militantes feministas costumam ser radicais, pois se queixam e reclamam de tudo, ou seja, vivem procurando chifre em cabeça de cavalo, piolho em cobra e cabelo em casca de ovo. Será? Então vejamos: o machismo da nossa sociedade se reflete até mesmo na gramática. Quer ver só? Quando a maioria das pessoas presentes em um lugar qualquer é formada por mulheres, como fica o plural? Sempre masculino, mesmo que haja apenas um ou dois homem em um grupo de cinqüenta mulheres. Quer ver de novo? Observe só o tratamento machista (que recebi por e-mail) existente na gramática portuguesa das ruas e digam se as feministas tem ou não razão.

CÃO – melhor amigo do homem.
CADELA – puta.

VAGABUNDO – homem que não faz nada.
VAGABUNDA – puta.

TOURO – homem forte.
VACA – puta.

PISTOLEIRO – homem que mata pessoas.
PISTOLEIRA – puta.

AVENTUREIRO – homem que se arrisca, viajante, desbravador.
AVENTUREIRA – puta.

GAROTO DE RUA – menino que vive na rua.
GAROTA DE RUA – puta.

HOMEM DA VIDA – pessoa letrada pela sabedoria adquirida ao longo da vida.
MULHER DA VIDA – puta.

HOMEM PÚBLICO – políticos ou administradores públicos.
MULHER PÚBLICA – puta.

O GALINHA – o “picudo”, que traça todas.
A GALINHA – puta.

TIOZINHO – irmão mais novo do pai.
TIAZINHA – puta.

FEITICEIRO – profundo conhecedor de alquimias.
FEITICEIRA – puta.

ROBERTO JEFFERSON, ZÉ DIRCEU, PAULO MALUF, JADER BARBALHO, EURICO MIRANDA, JOSÉ SARNEY – políticos (?!).
A MÃE DELES – putas.

PUTO – nervoso, irritado, bravo.
PUTA – puta.

Depois de ler esta postagem:
HOMEM – vai sorrir.
MULHER – vai ficar puta.

Por que o que não presta é sempre atribuído à puta? E por que putaria é sempre sinônimo de balbúrdia e de algo que não se deve levar à sério? E que mal há em ser puta? Ai, ai, viu! Durma com um barulho desses... (por Coccinelle)

domingo, 20 de setembro de 2009

A luz que não se apaga

Luz del Fuego Nasceu em 21 de fevereiro de 1917, ano da Revolução Russa, em Cachoeiro do Itapemirim, no Estado do Espírito Santo, numa madrugada de carnaval. Fora batizada com o nome de Dora Vivacqua. Era a décima quinta filha de Antônio Vivacqua e Etelvina Vivacqua.

Em 1929, após passar alguns anos morando em Belo Horizonte, sua família decide voltar para a cidade de Cachoeiro. Por essa época, Dora já estava entrando na adolescência e seu gênio forte começava a se revelar, não aceitando ordens ou opiniões de ninguém sobre sua vida.

Em 1932 ocorre o assassinato do seu pai por antigos inquilinos, que dias antes ele havia despejado de um dos seus vários terrenos. Dora estava com quinze anos e se sentia sufocada na pequena cidade de Cachoeiro. Para ela, até mesmo a capital, Vitória, parecia-lhe sufocante. Queria ir para o Rio de Janeiro, então capital federal. Abominava o uso do sutiã. Desfilava pela praia de Marataízes de calcinha e bustiê improvisado com lenços, numa época em que o biquíni sequer era imaginado. Com a morte do esposo, Etelvina decide voltar para Belo Horizonte. Dora vai junto, mas logo em seguida viaja para o Rio de Janeiro sob a tutela de seu irmão Attilio.

Em 1936, Dora já com 19 anos, inicia um romance com José Mariano Carneiro da Cunha Neto, membro de uma das mais importantes famílias do Rio de Janeiro. Seu irmão Attilio, que era contra o namoro, a despacha de volta para a casa da família em Minas Gerais. Esse retorno vai marcar definitivamente a vida de Dora.

De volta à casa materna, Dora passa a ser assediada e molestada pelo cunhado Carlos, um dos maiores empreiteiros do Brasil à época e esposo da sua irmã Angélica. Certo dia, Angélica flagra seu marido bolinando a irmã no quarto do casal. A maior parte da família preferiu acreditar nas mentiras de Carlos e tomou Dora como esquizofrênica. Isso lhe custou dois meses de internação no Hospital Psiquiátrico Raul Soares, em Belo Horizonte, e dez quilos a menos.

Sabendo do acontecido, seu irmão Achilles proibiu Carlos de freqüentar a casa dos Vivacqua (o que aconteceu até que Achilles morresse em dezembro de 1942). Preocupado com o estado que Dora deixou o hospital, Achilles consegue convencê-la a passar uma temporada na fazenda de Archilau, um dos seus irmãos mais velhos.

Na fazenda do irmão Dora tinha total liberdade. Um dia apareceu estilizada de Eva – com três folhas de parreira presa nos seios e no púbis, além de duas cobras-cipós como braceletes – para o filho do administrador da fazenda, responsável em acompanhá-la onde quer que fosse. Quando repreendida por Archilau, atirou-lhe um vaso de cristal na testa. Toda esta rebeldia causou uma segunda internação, desta vez na Casa de Saúde Dr. Eiras, famosa clínica psiquiátrica do Rio de Janeiro. Mais uma vez seu irmão Achilles intervém, levando-a para morar com a irmã Mariquinhas em Cachoeiro.

Em 1937 Dora decide fugir para o Rio de Janeiro. De volta à capital federal, ela retoma seu romance com Mariano, porém não aceita oficializar a relação. Resolve se tornar pára-quedista, mas Mariano a proíbe. Apaixonada, interpreta a proibição do namorado como uma demonstração de amor. As desavenças e o fim do romance começaram a ocorrer de fato quando Dora decidiu fazer um curso de dança na academia Eros Volúsia.

Em 1944 Dora se torna uma artista. Sua estréia ocorreu no picadeiro do Circo Pavilhão Azul, em companhia do casal de jibóias Cornélio e Castorina. O nome que inicialmente adotava era o de Luz Divina. A figura exótica da personagem de Dora era reforçada pelas chamadas do apresentador do espetáculo: "E atenção, senhoras e senhores! Chegou o momento da grande atração da noite! Com vocês, a única, a exótica, a mais sexy e corajosa bailarina das Américas! Luz Divina e suas incríveis serpentes!". A platéia delirava.

Em 1947 nasce Luz del Fuego, personagem que imortalizaria Dora Vivacqua. Por sugestão do amigo e palhaço Cascudo, Luz Divina se transformou em Luz del Fuego, nome de um batom argentino recém-lançado no mercado. Segundo seu amigo, nomes estrangeirados atraíam mais o público. Dora acatou de imediato a sugestão, pois acreditava que a imagem do fogo marcava o início de uma nova vida e o fim daquela que anteriormente levava.

Por já haver tirado vários circos da falência com seus espetáculos, o casal Juan Daniel e Mary Daniel, donos do Follies, um pequeno teatro em Copacabana, resolveu contratar Luz del Fuego. Suas falas – que nunca decorava – ficavam sob responsabilidade de um jovem membro da família que, aos doze anos, ingressava na carreira artística, o hoje conhecido diretor Daniel Filho.

O espetáculo Mulher de Todo Mundo, estrelado por Luz, fez muito sucesso. As notas na imprensa começaram a aparecer com grande freqüência. Mesmo desvinculada do nome Vivacqua, as atividades de Luz causavam incômodo à família. Seu irmão Attilio havia sido eleito senador da república e uma irmã dançarina, de acordo com os padrões vigentes na época, depunha contra a moral de um homem público. Não bastasse isso, Luz resolveu publicar seu diário com o título de Trágico Black-Out. Trechos comprometedores, como a sedução pelo cunhado, e fatos que aludiam a uma prostituição assumida davam o tom do livro. Attilio conseguiu comprar mais da metade da edição (cerca de mil exemplares) para colocar fogo nos volumes. No final da sua autobiografia, Luz anunciava um segundo livro com o sugestivo nome de Rendez-vous das Serpentes.

No início dos anos 50 as idéias naturistas vinculadas à prática do nudismo, apresentadas em Trágico Black-Out, começaram a ser vivenciadas por Luz. Começou a reunir um pequeno grupo de amigas na praia de Joatinga, próximo à sua casa na avenida Niemeyer. Apesar de ser uma praia deserta devido ao difícil acesso, Luz sempre ia à praia acompanhada dos amigos Domingos Risseto, Miss Gilda e Miss Lana (estes últimos, transformistas), alguns cães e o casal de jibóias Cornélio e Castorina, segundo ela, sua maior garantia contra os abelhudos. Na concepção de Luz, "Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder". Assim, ela começou a tornar públicas suas idéias a cerca do nudismo-naturalismo num país onde o uso do maiô de duas peças nas praias não era sequer cogitado e o culto ao corpo se resumia aos concursos de Miss.

Apesar de praticar o nudismo numa praia absolutamente deserta e de difícil acesso, a polícia ainda assim, julgou imoral tal prática e acabou prendendo todos os nudistas. Luz percebeu então que o nudismo colocaria suas idéias em evidência. Publicou mais um livro autobiográfico, A Verdade Nua, no qual lançava as bases de sua filosofia naturista. A família, desta vez, não precisou se preocupar, pois as próprias autoridades se encarregaram de dar sumiço à obra. A segunda edição foi vendida por reembolso postal. A renda seria destinada à aquisição de uma ilha na qual instalaria a sede de seu clube naturista.

Luz del Fuego causava furor onde se apresentava. Do Rio de Janeiro, passou a ser conhecida em todo o Brasil, chegando até mesmo a ser capa da famosa revista norte-americana Life. Seus shows eram garantia de bilheteria certa e levavam todos ao delírio. Era o tempo das vedetes: Mara Rúbia, Virgínia Lane e Elvira Pagã, sua maior rival.

Luz doava rendas de seus espetáculos para instituições beneficentes, fazendo leilões de si mesma. Foi multada e detida para interrogatórios inúmeras vezes. Quando era liberada pela polícia, saía alardeando em praça pública que as autoridades que insistentemente ordenavam sua detenção (delegados, juizes, prefeito) se comportavam de maneira muito duvidosa, porque, segundo ela, um homem de verdade não se ofende com a nudez de uma mulher, pois sabe apreciar a beleza do corpo feminino. Por causa dessas declarações era detida por desacato à autoridade.

Seus irmãos começavam a projetar seus nomes em diversas áreas da vida social, principalmente na política, no comércio e nas artes. O parentesco com a escandalosa Luz del Fuego passou a ser algo incômodo para eles, que passaram a persegui-la sem trégua. Attilio comprava edições inteiras das revistas em que Luz aparecia e a culpou por ter perdido as eleições para governador do Espírito Santo (durante a campanha, seu adversário alardeava pelo interior do Estado que o senador Vivacqua era irmão de uma mulher suja e demoníaca).

Luz se aproveitava da situação. Quando necessitava de dinheiro, ameaçava dançar nua nas escadarias do Senado. Attilio a chamava de chantagista, mas ela retrucava, alegando que estava apenas cobrando a parte da herança paterna que os irmãos lhe haviam surrupiado.

Juntamente com seu amigo e parceiro de palco, Domingos Risseto, Dora, à custa de espetáculos gratuitos que fazia seminua nas escadarias do Teatro Municipal, criou o PNB - Partido Naturalista Brasileiro. Seu irmão Attilio, no entanto, graças à sua influência política, conseguiu impedir o registro do partido.

A fim de conseguir a concessão de uma ilha para a sede de sua colônia naturista, Dora seduziu o Ministro da Marinha, que lhe concedeu uma ilha em Tapuama de Dentro. Dois terços da ilha, de seus oito mil metros quadrados, eram formados por rochas, cactos e arbustos secos. Dora se sentiu enganada. Teve vontade de desistir, mas como isto não era de sua natureza, fundou nesse lugar aparentemente inóspito a famosa e polêmica Ilha do Sol.

A Ilha do Sol foi o primeiro recanto naturista publicamente conhecido no Brasil e, por conseqüência, criticado indiscriminadamente. Passou a ser uma das grandes atrações turísticas do Rio de Janeiro, apesar de não fazer parte dos roteiros oficiais. Várias estrelas do cinema americano conheceram a ilha: Errol Flynn, Lana Turner, Ava Gardner, Tyrone Powel, César Romero, Glenn Ford, Brigitte Bardot e Steve MacQueen, que encerrou sua temporada de uma semana na ilha depois de acordar com uma das jibóias de Luz sobre seu peito. Em 1959, Jayne Mansfield e seu marido aportaram na ilha, mas foram proibidos de descer pois Jane não queria ficar nua.

Luz passou a viver exclusivamente para a sua Ilha do Sol, o que acabou consumindo suas economias. Com o avanço da idade, o mito começou a conhecer o ocaso. Seus amantes deixaram de ser homens influentes e ricos.

No dia 19 de julho de 1967 os irmãos Alfredo Teixeira Dias e Mozart, o Gaguinho, armaram uma emboscada para Luz del Fuego para dela se vingarem, pois as ações criminosas de Mozart haviam sido apontadas à polícia por Luz. Os dois atraíram Luz ao seu barco e a mataram. Fizeram o mesmo com o caseiro Edgar. O crime só foi desvendado duas semanas depois, a partir do depoimento que um coveiro deu aos jornalistas Mauro Dias, do jornal O Dia e Mauro Costa, do jornal Última Hora. Alfredo foi preso e confessou a participação nas mortes. Os corpos foram resgatados no dia 01 de agosto. Gaguinho conseguiu escapar, mas após uma troca de tiros com a polícia, que acabou matando um Cabo, ele foi preso. A morte de Luz del Fuego poderia não importar à polícia, mas a de um colega militar, em plena ditadura, era algo imperdoável. Os assassinos de Luz foram condenados à pena máxima, que cumpriram no manicômio judiciário do Rio de Janeiro. Com a morte de Luz, o grupo que a seguia se dissipou, fazendo que o naturismo ficasse restrito a algumas famílias que praticavam a nudez social em pontos isolados do país. Seu nome, no entanto, não foi esquecido pois ficou escrito nas estrelas (por Coccinelle).

domingo, 13 de setembro de 2009

Homofobia na política brasileira

Vítimas da intolerância sexual, lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros são caçados diariamente nas comunidades do Rio. Conforme O DIA mostrou em série de reportagens, os homossexuais que moram nas favelas cariocas são alvo do preconceito e da ira de milicianos e traficantes. Muitos acabam assassinados por causa de sua orientação sexual. O aumento dessa violência, que já invadiu até as salas de aula, chamou a atenção da senadora Fátima Cleide (PT-RO). Relatora do projeto de lei que criminaliza a homofobia, ela afirma que o Congresso Nacional é homofóbico. Inconformada com a dificuldade para aprovar a medida, a senadora foi à tribuna mostrar as reportagens e cobrar atitude dos demais parlamentares (por Mahomed Saigg).
O DIA: O que falta para a aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia no Brasil?
Fátima Cleide
: Relatei o projeto de lei em março de 2008. Mas até agora ele não pôde ser votado sequer na Comissão de Assuntos Sociais por causa de pedidos de vista e votos em separado feitos por alguns senadores. A verdade é que esta proposta tem enfrentado grande rejeição por parte de parlamentares que compõem a Frente Evangélica no Congresso, que são contra sua aprovação.
E o que esses políticos dizem sobre a violência gerada pela homofobia?
O Congresso Nacional é reflexo da sociedade. Como boa parte dos brasileiros tem preconceito, muitos têm receio político de se posicionar na defesa dos direitos humanos, sobretudo de homossexuais. O Congresso é muito homofóbico.
Por quê?
Por causa das próprias atitudes dos parlamentares. Aqui mesmo no Congresso é comum a gente ouvir piadas sobre a orientação sexual de deputados e senadores.
Quais as principais consequências da demora na aprovação desta lei?
Como não existe punição para quem age de maneira homofóbica no Brasil, o preconceito não para de aumentar. E está ficando cada vez mais violento. Uma das principais consequências dessa falta de punição é o isolamento de lésbicas, gays e travestis, que estão ficando cada vez mais limitados a guetos na sociedade.
Como a senhora vê a homofobia nas salas de aula?
Esse problema é gravíssimo porque aumenta a violência nas escolas e a evasão escolar. Hoje em dia, para um homossexual sobreviver na escola, é preciso que tenha muita determinação e força de vontade, porque o preconceito é muito grande. Mas nem sempre isso é suficiente. Se um aluno homossexual é perseguido no colégio, a tendência é que ele não volte nunca mais. Por isso é importante que os professores estejam preparados para lidar com situações como essa.
Muitos homossexuais dizem que não conseguem ingressar no mercado de trabalho. A senhora acredita que esta dificuldade está atrelada à homofobia?
Não há dúvidas de que sim. Se pessoas com alta preparação têm dificuldade para conseguir um emprego, imagina um homossexual que não consegue concluir sequer o Ensino Fundamental! Esse é o caso de muitos gays e lésbicas que abandonam a escola antes de concluir os estudos por causa da perseguição que sofrem.
A senhora acha que a homofobia é mais grave nas favelas e subúrbios?
O preconceito está em todo lugar. Mas nas favelas e periferias, a homofobia é ainda maior. É onde ela se apresenta da forma mais violenta. É também onde ela é mais consentida pela população, que finge não ver o que está acontecendo.
O que fazer para conseguir reverter este quadro?
A homofobia é uma questão cultural, que só será superada com educação. A escola tem um papel fundamental no processo de superação dessa questão. Mas nós já atingimos um patamar tão grande de violência que só a educação não resolve. Por isso insistimos na criminalização da homofobia.

domingo, 6 de setembro de 2009

Poema Falado: Filosofia do Gesto ou Pernambucobucolismo

Lembro-me bem do que escreveu Fernando Pessoa no seu Palavras do Pórtico. Escreveu ele: Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:Navegar é preciso; viver não é preciso*. Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. Quero para mim o espírito dessas palavras a fim de transformá-las em minhas e, desta forma, poder dizer: DESCOLAR-SE É PRECISO!

O Poema Falado deste mês discorre sobre o bucólico ato de descolar-se. Reúne quatro poemas: Filosofia do Gesto, de Mel de Carvalho, falado por Sílvio Benevides; Poema para Amsterdam, de Sérgio LDS; Lisboa, de Coimbra de Resende; Vielas de Alfama, belíssimo fado de Maximiano de Sousa e Arthur Ribeiro; e, por fim, Pernambucobucolismo, canção viandante composta por Marisa Monte e Rodrigo Campelo, interpretada pela própria Marisa Monte. Boa Leitura!
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*NOTA: “Navigare necesse; vivere non est necesse”, frase atribuída a Pompeu (106-48 aC.), general romano, dita aos marinheiros que, amedrontados, recusavam viajar durante a guerra.

domingo, 30 de agosto de 2009

De Renato Russo a Santos Dumont

O texto abaixo não é de minha autoria. Quem conhece esse cantinho sabe muito bem que eu, Coccinelle, não publico apenas textos meus, mas, também, textos de outros que admiro e que enxergam o mundo de uma maneira semelhante à minha. A autoria do texto abaixo é da Vange Leonel, cantora, compositora e escritora que admiro muito, não apenas porque compôs NOITE PRETA, o hit de abertura da telenovela global Vamp (que eu adorava e não perdia um só capítulo), mas, sobretudo, por conta dos artigos que publicava na antiga e inesquecível revista SUI GENERIS. Sempre me identifiquei com os escritos dessa mulher inspiradora, seja pelo conteúdo em si, informativo e libertário, seja pela maneira simples e direta que ela utiliza para se comunicar com seus leitores/interlocutores (essa primeira parte do post é de minha autoria).

Renato Russo, Cássia Eller e Cazuza foram raros exemplos de artistas que assumiram, em vida e publicamente, sua homossexualidade. Ney Matogrosso, João Silvério Trevisan, Aguinaldo Silva, o jogador de vôlei Lilico, Leão Lobo, Edson Cordeiro e esta humilde escriba são pessoas com alguma visibilidade na mídia que não escondem sua preferência pelo mesmo sexo.

Há cada vez mais gente assumindo sua homossexualidade para o público, e embora alguns achem tratar-se apenas de sem-vergonhice e exibicionismo, não é: dizemos em alto e bom som que somos gays porque não queremos viver à sombra. Se há homossexuais que não querem fazer alarde de sua condição, há outros, como os citados acima, que não vêem (ou não viram) razão para ocultar suas preferências.

Afinal, heterossexuais podem sair à rua de mãos dadas com seus pares e chegam a festas apresentando-os como “meu namorado” ou “minha mulher”. Ora, por que teríamos que fazer diferente? Só porque gostamos de pessoas do mesmo sexo deveríamos varrer nossos namorados para baixo do tapete?

Não é fácil. Conseguimos maior visibilidade e conquistamos alguma proteção da lei, mas o senso comum ainda acha que, mesmo tendo o direito de existir e respirar, é melhor que fiquemos em nossos cantos, de preferência sob a sombra e abrigados pelo véu da noite, quando os gatos são pardos e as crianças dormem.

Isso me lembra uma declaração que li, meses atrás, de um sujeito empenhado em criar um roteiro turístico sobre Santos Dumont. Imaginando-se paladino do patrimônio nacional, ele disse que, inicialmente, precisaria “limpar” a imagem do aviador e desabafou: “Só no Brasil acontece isso! A coisa mais absurda é ferir a imagem de uma figura de extrema importância mundial com o fato de ele ser ou não homossexual”.

Fiquei pasma. Absurdo é achar que a possibilidade de Santos Dumont ter sido homossexual possa ferir sua imagem. Depois, sujeitos assim ainda vêm dizer que não são preconceituosos e até têm amigos gays – bem trancados no armário, claro!
(por Vange Leonel – Revista da Folha 02/02/2003)
*
NOITE PRETA – a música

Música de Vange Leonel e Cilmara Bedaque. Direção do clip: Cilmara Bedaque e Luiz Ferré.




VAMP – a novela

Abertura da telenovela da Rede Globo, escrita por Antônio Calmon e dirigida por Jorge Fernando. Exibida no horário das 19:00h, entre julho de 1991 e fevereiro de 1992, a trama tinha como principais protagonistas a bela e exuberante Cláudia Ohana e o maravilhoso Ney Latorraca. Sucesso retumbante de audiência, especialmente entre crianças e adolescentes.


domingo, 23 de agosto de 2009

Pour Coccinelle

Comment vas-tu? J’espére que tout va bien avec tu et ta famille. Je suis trés heureux. Pour cet raison, je écris pour vous cette letre. Pour diviser moi félicité avec vous, qui êtes moi meilleur ami.

Tu souviens de le voyage que j’ai fait a Caicolândia? Cette voyage est allé la meilleur de ma vie, parce que là j’ai recontré la lumière que aujourd’hui illumine mes jours et mes nuits aussi. Cette lumière s’apelle Anatércia et elle est plus radieux que le soleil ou la pleine lune.

Nous nous recontrions en une matin de samedi. Anatércia avait passé devant ma fenêtre, quand je la voyais pour la première fois. Elle a ressemblé une brume a glisser sur la terre recouvrait de poussière. Elle est allé pour la marche. Je la suivis. Elle a acheté banane, haricot, farine, riz, courge et viande de porc, beacoup viande. Elle n’a pu pas porter tout chose que avait acheté parce que ils sont été lourd. Je me offris pour la servir. Elle a souriri pour moi tendrement et je suis presque mort.

Quand nous avions arrivé a sa maison, elle a me inventé pour entrer. J’ai accepté le invitation. En sa modeste maison, mais très chaleureux, elle a me offert eau de coco. Cett’eau a été la meilleur que j’ai déjà bu. Après une long conversation, nous avons percevu que le temp a passé. Mais déjà a été très tard. Nous étions amoureux beaucoup. Nous n’avons voulu pas fuir de notre passion. Pour cet raison, nous avons continué a boire eau de coco, que est bom pour notre santé. À bien-tôt. Ariovaldo
.

O amor é como como água de côco. Não bastasse ser algo deliciosamente delicioso, faz um bem danado à saúde. Só me resta, então, dizer bebamos, pois! Bebamos para embriagarmo-nos de amor até o amanhecer e, assim, gozarmos todas as delícias da voluptuosidade (Coccinelle).

domingo, 16 de agosto de 2009

Todo mundo é meio Leila Diniz

Viver e não ter a vergonha de ser feliz”, ou melhor, viver e não ter a vergonha de ser, simplesmente. Esses versos da música do Gonzaguinha parecem ser bastante apropriados para definir uma das personalidades mais fascinantes do Brasil, Leila Diniz. A sua revolução não foi aprisionada por amarras teóricas ou conceituais, foi, isto sim, vivida intensamente, fazendo dela uma mulher libertária. Talvez por isso seu comportamento e suas idéias escandalizassem tanto a conservadora sociedade brasileira dos anos 60.

Leila Roque Diniz nasceu no dia 25 de março de 1945, em Niterói, estado do Rio de Janeiro. Ainda adolescente saiu de casa e passou a viver com o cineasta Domingos de Oliveira. Chegou a trabalhar como professora primária até o início de sua carreira artística, na peça O PREÇO DE UM HOMEM, a convite de Cacilda Becker (1964). No ano seguinte, estrearia no cinema, em O MUNDO ALEGRE DE HELÔ. Nesse período, separou-se de Domingos de Oliveira e passou a viver sozinha.

Em 1966, ganhou notoriedade com TODAS AS MULHERES DO MUNDO, filme autobiográfico de Domingos de Oliveira sobre o casamento dos dois. Junto ao ator Paulo José, apareceu nua e esplendidamente bonita, vivendo a história de um amor que se transformava em amizade. Sua espontaneidade e brilho ao representar praticamente a si mesma transformaram-na em modelo de mulher livre para boa parcela das classes média e alta. O filme conquistou o público e recebeu sete prêmios no Festival de Brasília. A partir de então Leila passou a trabalhar intensamente. Em 1968 filmou EDU, CORAÇÃO DE OURO, FOME DE AMOR, O HOMEM NU e A MADONA DE CEDRO. Além de filmes, atuou em várias telenovelas, entre as quais O SHEIK DE AGADIR e O ALIENISTA. Em 1969, estrelou TEM BANANA NA BANDA, espetáculo de teatro que se notabilizou por ter revitalizado o gênero de revista.

Foi também em 1969, quando o Brasil chafurdava no lamaçal de fardas da ditadura, que Leila Diniz provocou uma enorme polêmica no país. Em entrevista ao periódico alternativo Pasquim deu a primeira entrevista sobre intimidades da história do jornal, comprovando que de fato ela era a manifestante despudorada do prazer e uma das revolucionárias mais eficientes de uma época em que tabus e ideologias conservadoras foi amplamente questionadas. “Não gosto de convenções. Não tenho preconceitos. Não faço regimes”, dizia. No auge da repressão política no Brasil, ela pregou a liberdade feminina e o amor livre e em momento algum posou de moça recatada. “Você pode amar muito uma pessoa e ir para a cama com outra. Já aconteceu comigo”, revelou.

Suas declarações e idéias fizeram o jornal vender como nunca e a referida entrevista acabou entrando para a história não só pelas opiniões da entrevistada, mas por haver motivado a lei de censura prévia, apelidada de Decreto Leila Diniz, produzida pelo então ministro da Justiça, Alfredo Buzaid, cujo pretexto para justificar o seu ato foi o monte de palavrões que ela proferira ao longo da entrevista, apesar dos editores tê-los substituídos por 72 asteriscos. Em conseqüência, seu contrato com a Rede Globo não foi renovado e a ditadura passou a fazer pressão para que não mais a contratassem.

Entre 1970 e 1971, Leila Diniz conheceu o diretor Ruy Guerra, com o qual teve uma filha de nome Janaína. Apesar da paixão que os unia, cada qual continuou vivendo em sua própria casa. Em 1971, grávida de seis meses, escandalizou mais uma vez a sociedade brasileira ao aparecer de biquíni na praia de Ipanema. Suas fotos, com a barriga exposta e o rosto sorridente, de imediato tiveram ampla divulgação na imprensa. Afinal, o povo nunca tinha visto aquilo. O ineditismo incômodo do seu gesto levou-a a ser acusada por feministas de servir aos homens. Num contexto histórico de polarizações ideológicas, Leila Diniz era considerada artificial pela esquerda, enquanto a direita a acusava de imoral. Outro motivo de escândalo foi a atriz ter dado de mamar à filha, Janaína, no intervalo do espetáculo de teatro de revista que estrelava, VEM DE RÉ QUE VOU DE PRIMEIRA. No ano seguinte, o talento de Leila foi reconhecido no exterior: ela ganhou o prêmio de melhor atriz do Festival de Adelaide, na Austrália, com o filme MÃOS VAZIAS. Na viagem de volta ao Brasil, seu avião explodiu a 30 km de Nova Déli, na Índia. Ela morreu em 14 de julho de 1972, aos 27 anos, com nove de carreira e 14 filmes. Quem ficou de mãos vazias foi a rebeldia nacional.

Hoje em dia, uma grávida na praia, de biquíni, é coisa normal. Mulher nua na tela do cinema não espanta ninguém e, muito menos, alguém liga se ela fala palavrões ou dá de mamar em público. Mas, na década de 60, a sociedade era bem diferente. Se houve alguém que abriu caminho para que todos esses comportamentos – à época, escandalosos – se tornassem cotidianos, foi Leila Diniz, com a força do próprio exemplo. Ainda que, no auge da radicalização política, não fizesse apologia ao movimento feminista, ou carregasse qualquer bandeira. “Não morreria por nada deste mundo, porque eu gosto realmente é de viver. Nem de amores, eu morreria, porque eu gosto mesmo é de viver de amores” (Revista Fatos e Fotos – fevereiro de 1968).

Ao contrário, ela nunca deu a entender que desejava convencer ou converter alguém. Se, depois de sua morte, os movimentos feministas acabaram por transforma-la num símbolo da emancipação da mulher, foi porque suas atitudes sempre refletiram a convicção de que todo mundo tinha o direito de viver como quisesse. Ser careta, liberado, intelectual, casar virgem era uma questão de opção individual e particular.

Como escreveu Ruy Castro em ELA É CARIOCA: UMA ENCICLOPÉDIA DE IPANEMA (Companhia das Letras, 1999): “Leila se deixou julgar por um país inteiro para que ninguém mais julgasse ninguém”. A leveza com a qual encarava a vida não deixa de despertar uma ponta de inveja, o que me leva a dizer, parafraseando a Rita Lee, que todos nós, mulheres e homens, somos meio Leila Diniz, ao menos desejamos ser (por Coccinelle).

domingo, 9 de agosto de 2009

Homofobia ou estupidez?

Homofobia, como se sabe, é o ódio e/ou aversão ao modo de ser e estar homossexual. Por mais que tente, não consigo entender a razão da homossexualidade provocar esse sentimento naqueles que se dizem não-homossexuais. Para mim, a homofobia, além de torpe, é muito suspeita. Digo suspeita porque toda fobia resulta de um incômodo que, de acordo com o dicionário, significa tudo aquilo que não é confortável, que provoca embaraço, mal-estar ou aborrecimento. Se algo provoca em mim todas essas sensações, então, esse algo me toca de alguma maneira. Não nos incomodamos com nada que não nos diz respeito. No caso da homofobia, suspeito que esse incômodo nasça de uma atração que precisa ser negada para que o indivíduo atenda às expectativas instituídas pelas convenções sociais tradicionalmente sedimentadas. Tal negação por vezes se manifesta de forma violenta, por outras, de maneira sutil, como se pode perceber na matéria abaixo, de autoria do Fábio Altman, publicada na revista ISTOÉ DINHEIRO do dia 23/06/2004. Vejam só:

Há algo de podre no reino de William Shakespeare – podre talvez seja uma expressão um pouco exagerada. O fato é que na próxima semana, durante um encontro de shakespearianos em Londres, a escritora Robin Williams apresentará uma tese insólita – o bardo de Stratford era uma mulher. Quem? Mary Herbert, née Mary Sidney, a Condessa de Pembroke. Amante das artes, exímia tradutora, freqüentadora da corte de Elizabeth I, ela morreu em 1621 com fama de sumidade. Houve, claro, um William – mas ele teria sido testa-de-ferro de Mary. Se William foi Mary, como indica o polêmico estudo, isso explicaria o fato dos sonetos de amor de Shakespeare serem dedicados a um efebo. Explica, também, a dedicatória da primeira coleção de peças de teatro, para os condes de Pembroke e Montgomery, seus filhos. Tome-se a suposição como certeza para alimentar uma questão: saber que Shakeaspeare era ela, e não ele, muda alguma coisa no interesse por uma das marcas mais valiosas da história? As edições de Romeu e Julieta venderão menos por sabermos que a tragédia foi criada por mãos femininas? “Não altera nada do que ele escreveu, o que importa é a obra, que atravessou tempos e lugares”, diz Aimara da Cunha Rezende, uma das grandes especialistas brasileiras na obra do gênio inglês, presidente do Centro de Estudos Shakespeareanos do Brasil. Mas não há dúvida: a revelação acrescenta fermento numa figura lendária, tratado em tom quase religioso por seus adeptos.

Perceberam como ocorre a negação? Diz o Fábio Altman: “Se William foi Mary, como indica o polêmico estudo, isso explicaria o fato dos sonetos de amor de Shakespeare serem dedicados a um efebo”. Ora, ora, por que o William Shakespeare, sendo um homem, não poderia ter dedicado sonetos de amor a um efebo? Por qual razão é difícil aceitar que um dos maiores escritores da humanidade e da cultura ocidental era homossexual? Simples: HOMOFOBIA!

No tempo do Shakespeare as mulheres eram consideradas seres menores, inferiores aos homens. Consequentemente, tudo que viessem a produzir, sobretudo no campo das artes e das idéias, era considerado (quando considerado) algo menor, sem importância alguma. Sendo assim, produtores e editores se recusavam a publicar obras assinadas por mulheres. Daí muitas terem utilizado pseudônimos masculinos ou supostos testas-de-ferro, conforme foi dito na matéria do Fábio Altman. O que acabo de dizer não é novidade alguma. Evidentemente que o famoso William Shakespeare poderia ter sido um desses testas-de-ferro. A hipótese da pesquisadora/escritora Robin Williams é perfeitamente plausível. O que não é plausível é afirmar que o Sir William Shakespeare só poderia ter escrito sonetos de amor para rapazes se ele fosse, não um homem, mas, sim, uma mulher. Se isso não for homofobia, sem dúvida, é uma grande estupidez, afinal, somente uma mente tola ou doentia pode duvidar que homens sejam capazes de escrever cartas e/ou poemas de amor, ou até mesmo livros e peças teatrais inteiras, para outros homens (por Coccinelle).

domingo, 2 de agosto de 2009

Poema Falado: Sorri-Smile

Um poema é mais que um poema. Um poema é a senha que nos permite acessar o recôndito das almas, seja a alma de quem o escreve, seja a alma de quem o aprecia. Os poemas nos revelam. Vamos, pois, revelarmo-nos através dos poemas falados que doravante O cantinho de Coccinelle e outros dois blogs, o Bienvenue-Ami e o Salvador na sola do pé, apresentarão sempre no primeiro domingo de cada mês. Pretendemos formar uma rede tecida por versos e sons magníficos, afinal, como disse o Carlos Drummond de Andrade, “uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”. Se quiser fazer parte dessa rede é só entrar em contato. O primeiro poema da série que hoje se inaugura é o Smile, letra composta por John Turner e Geoffrey Parsons para a música do Charles Chaplin. No Brasil ela foi lindamente traduzida por João de Barro, o Braguinha, nome fundamental da música brasileira. É esta tradução que aparece no vídeo abaixo. Boa leitura!

SORRI (SMILE)




Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz!

terça-feira, 28 de julho de 2009

O erotismo 2

O erotismo pode ser interpretado de maneiras distintas. Há quem o interprete tomando como ponto de partida questões mais voltadas para a sexualidade. Outros, preferem abordá-lo do ponto de vista filosófico. O autor do artigo a partir do qual a presente resenha foi elaborada, Luiz Renato Martins, optou por essa segunda abordagem para discorrer sobre o referido tema.

Partindo de uma análise da trajetória filosófica de Georges Bataille, Renato Martins afirma que nem sempre o erotismo está diretamente ligado à noção de desejo, como ocorre na obra do autor que ele analisa. Quando o desejo aparece nos escritos desse autor, argumenta Martins, geralmente nos remete a situações sem conotação sexual direta, diferentemente das concepções usuais da psicanálise, que passou a pensar essa questão como atributo da sexualidade. Assim, de acordo com Renato Martins, o desejo em Bataille surge, na maioria dos casos, como uma operação do espírito que busca uma evolução cognitiva. Faz-se necessário, portanto, por de lado a via do desejo para poder entender o erótico na obra Bataille.

O ponto de partida de Bataille para discutir o erotismo é a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Como se vê, o exame do erotismo feito por ele está à luz da interpretação do pensamento hegeliano, um pensamento que se ocupa bastante com a questão do conflito. Para Martins, não é intenção de Bataille transgredir ou contestar Hegel. Entretanto, ele propõe uma atualização desse mesmo pensamento, o que eqüivale dizer modernização. Como?

Através, principalmente, dos dados fornecidos por Freud e Marcel Mauss na Psicanálise e na Antropologia, respectivamente.

O erotismo, para Bataille, estabelece dois planos de conflito: o primeiro (deboche), se constitui numa oposição à elevação moral do pensamento; o segundo, se manifesta numa cisão irreconciliável da consciência, problematizando a integridade do espírito.

“Os contatos da consciência com a vida e as relações entre as diferentes figuras da consciência são pensadas por Hegel mediante o esquema da luta […] Em tal sistema, o conflito está determinado e tem um conflito. Assim, o entendimento, no papel de forma inferior do espírito, distingue externamente os oponentes; já na fase seguinte, o conflito é absorvido e se torna interno. Nesse percurso, o progresso da consciência de si acaba por conduzir à supressão das diferenças e ao reencontro da consciência consigo, constituindo-se então como Razão […] nessa evolução, desaparecem as desigualdades iniciais entre as consciências oponentes. Os pólos adversários se reconhecem, em uma unidade externa e interna. Alcança-se assim a superação dos conflitos. Desse modo, para Hegel, a luta funciona apenas como forma provisória, fase de um processo cuja meta é a unidade pacífica e sintética de todas as diferenças”.

Para Bataille ocorre o oposto. O erotismo estabelece contradições insuperáveis na consciência. A experiência erótica atesta o caráter duplo do espírito, ou seja, sua heterogeneidade. Essa heterogeneidade, afirma, simultaneamente, de acordo com Martins, o interdito e a transgressão, a oposição entre pensamento e espírito, a ordem e a desordem e por isso ela é insuperável. Diferentemente de Hegel, em Bataille a consciência (o Espírito), uma vez separada, não tem mais como reconciliar-se. Ele descarta, portanto, a síntese e a pacificação das contradições. É desse modo que Bataille propõe a atualização da fenomenologia hegeliana, ultrapassada, segundo ele, por saberes mais modernos, como a psicanálise, a antropologia, a sociologia, etc. Assim, o destaque que Bataille dá à questão do erotismo acaba necessariamente salientando sua qualidade de PARADOXO.

Sartre o critica por desconsiderar a síntese e a pacificação da consciência e por isso o situa entre os discípulos “infiéis” de Hegel. Para Martins, entretanto, apesar da crítica sartriana ser procedente, Bataille não pode ser classificado como um “infiel”, pois, segundo ele, a posição de Bataille em considerar as contradições da consciência sem solução se explica por sua aproximação com os escritos de Nietzsche.

Qual a importância do pensamento de Nietzsche na obra de Bataille?

Segundo o Bataille, o niilismo (redução a nada; descrença completa; doutrina política segundo a qual o progresso da sociedade só é possível após a destruição de tudo aquilo que existe socialmente) de Nietzsche eliminou qualquer esperança de apaziguamento do espírito, colocando o conflito como algo inerente à sua própria constituição. Desse modo Nietzsche conseguiu evitar a síntese e, por conseguinte, impediu a constituição da Razão.

Assim Bataille se distancia do arcabouço metafísico de Hegel e nesse seu percurso passa a travar uma luta com as filosofias de Heidegger e de Sartre. O seu pensamento, segundo Renato Martins, se ordena mediante tal confronto. Assim, acaba por se tornar um acorde dissonante tanto do existencialismo quanto da fenomenologia. Somente através desse confronto é que podemos, de acordo com Renato Martins, entender a questão do erotismo em Bataille.

O erotismo aparece em Bataille como um contraposto à noção de LIBERDADE apresentada por Heidegger e por Sartre. Para ele, a experiência erótica, assim como o riso, o choro, o sacrifício, etc., escapa à ordenação cognitiva, ou seja, no mínimo ultrapassa o conhecimento como um fim, visto que se desvencilha do esforço específico de significar (experiência fenomenológica), pois desenvolve intensa atividade emocional. Adentra uma região normalmente velada pela consciência, ou, segundo Bataille, “uma região obscura, fechada à fenomenologia”, que é a AFETIVIDADE. Desse modo, Bataille separa a experiência em dois domínios distintos: o da consciência e o da afetividade. Note que ao fazer tal separação, Bataille está enfatizando o caráter heterogêneo do espírito. Portanto, esses dois domínios não são conciliáveis.

Nesse ponto tem início toda a crítica que ele faz a Heidegger. Começa por se contrapor a este, tomando o RISO como ponto de partida para seu pensamento e não a ANGÚSTIA como o faz Heidegger.

Para Heidegger, o outro provém da angústia, ou seja, o nada. Assim, segundo ele, “a angústia constitui um estado propício à revelação da totalidade”. Como Bataille considera a consciência dotada de contradições irreconciliáveis, descarta, portanto, a revelação de uma totalidade. Com isso, contrapondo-se à angústia, que remete à totalidade, o riso, para Bataille “pressupõe o não-sentido e conduz ao não-saber”.

Negando qualquer remissão à totalidade e enfatizando o não-saber, o não-sentido, Bataille entra em desacordo com a noção de liberdade de Heidegger, que dada a sua primazia no ser, acaba por vincular-se à essência da verdade e ainda à noção de totalidade. Para superar tal idéia, Bataille elabora a noção de SOBERANIA, surgida com o embate travado com Sartre.

Segundo Renato Martins, a experiência da liberdade, para Sartre, ocorre mediante uma escolha racional (o homem pode escolher ser isto ou aquilo), conjugada a uma aspiração que escolhe valores (escolher é afirmar o valor do que escolhemos). A liberdade em Sartre, portanto, caracteriza-se como uma ação moral. Desta maneira, a CONSCIÊNCIA aparece como forma necessária da liberdade.

Bataille, entretanto, não coloca a consciência na centralidade do seu pensamento. Assim, ele descarta o que, em Sartre, aparece como mais legítimo, ou seja o cogito, adotando a categoria dos afetos como algo nato e imediato, e não como estados da consciência. O que ele propõe, portanto é libertar-se da noção de liberdade, em favor da noção de SOBERANIA para que se possa ir além da necessidade.

Em que consiste a soberania para Bataille? A noção de soberania cunhada por Bataille foi influenciada pelos trabalhos de Marcel Mauss no que se refere ao potlach. Tal noção consiste num impulso da consciência ao desperdício, ao esbanjamento, o que vai de encontro ao impulso da acumulação, característica do capital. Na sua definição, o burguês é o ser mais avesso à soberania, uma vez que seu objetivo é acumular e seu maior prazer se encontra na opulência.

Renato Martins recorre a algumas imagens, oferecidas pelo próprio Bataille para exemplificar sua noção de soberania. Por exemplo: um operário que se serve de um copo de vinho; um pobre que numa manhã de primavera vislumbra um raio de sol numa rua miserável; um fumante tragando seu cigarro. A soberania estaria, então, ligada ao prazer, experiência esta submersa na região da afetividade, a qual escapa à ordenação cognitiva, que dissocia a vida mental dos imperativos e ditames sobre os comportamentos.

Para Bataille, uma ação soberana está correlacionada aos impulsos de esbanjamento. “Ela se refere a uma opção da consciência favorável ao desperdício, benevolente com a perda. Assim, a soberania se apresenta como perspectiva operatória, que avalia condutas, excluindo, ao se efetuar, toda referência a alguma finalidade [acaso existe alguma finalidade em fumar, ou contemplar o sol?], a uma essência, a uma origem determinante. A soberania assinala a dispensa das representações da vida humana conjugadas a sinais de servidão e insuficiência”. Desse modo, “no âmbito dos comportamentos, os seres não escapam à necessidade imperiosa, uma vez o excesso se fazendo sentir, de desperdício. Contudo, com freqüência, tais gastos são malditos [a PARTE MALDITA, não reconhecida pela consciência, que busca destruí-la]. A consciência não costuma tolerar perdas improdutivas ou insensatas”. Como se vê, a soberania, para Bataille, “não conduz ao universal ou à Razão, não se efetua como momento de síntese do espírito” (por Coccinelle).

Resenha feita a partir da seguinte obra:

MARTINS, Luiz Renato. "Do erotismo à parte maldita". In: NOVAES, Adauto (org.). O Desejo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.